⚠️ Esta resenha contém spoilers do livro inteiro.
O Morro dos Ventos Uivantes — Emily Brontë
Se você é uma pessoa que gosta muito de música, como eu, você provavelmente já escutou Wuthering Heights, da cantora Kate Bush.
Pois bem, eu sabia que Wuthering Heights era um livro, que, traduzido pra nós, ficou como O Morro dos Ventos Uivantes. E, por eu ser uma amante de música, eu sempre pensei que devia ser a coisa mais romântica do mundo.
Quando foi no começo desse ano, eu achei uma versão à venda nas Americanas e pensei: “Hum, finalmente chegou a hora de eu conhecer a grande obra, o grande romance que nos trouxe aquele clássico que é a música da Kate Bush!”
Meus amigos, só Deus sabe o quanto eu estava enganada.
Apesar de a sinopse apresentar O Morro dos Ventos Uivantes como uma história de amor entre Heathcliff e Catherine, o livro começa de uma maneira que eu achei bastante interessante: Heathcliff já é um homem velho e rabugento, e Lockwood (do ponto de vista que somos introduzidos a história) é um homem mais jovem, aluga uma das propriedades dele.
A princípio, eu fiquei curiosa para saber como diabos essa história toda seria contada, considerando que Heathcliff claramente não parece ser o tipo de pessoa que gosta de visitas ou de conversar sobre a própria vida.
E gente, a velharada tratando o Lockwood mal para ele não voltar e ele simplesmente voltando mesmo assim KKKKK, o inimigo do fim.
Também fiquei completamente perdida no começo.
Como assim a Cathy é um fantasma? Esse rapaz é filho dela, mas não é filho do Heathcliff? Quem é filho de quem aqui?
Em determinado momento, eu simplesmente precisei criar uma árvore genealógica do zero para entender quem era quem.
Quando finalmente comecei a entender a história, achei muito interessante a origem do Heathcliff: o senhor Earnshaw literalmente encontrou o menino na rua e o levou para casa, mas ele passou a infância sofrendo nas mãos dos filhos dele.
Heathcliff foi tratado de maneira desumana, principalmente por causa do preconceito que as pessoas tinham contra ele. Isso não justifica o homem que ele se tornou, óbvio, mas definitivamente explica muita coisa sobre aquele velho ranzinza e cheio de ódio.
Também descobrimos que Heathcliff e Catherine foram separados de propósito, como uma forma de castigo, e que a história que estamos acompanhando é contada principalmente por Nelly, a governanta. Aos poucos fica claro que Heathcliff e Catherine eram apaixonados um pelo outro, o que também explica a hostilidade dele em relação a Edgar (filho do vizinho) que tem interesse na jovem.
E aí chegamos à Catherine.
Olha, eu tentei muito gostar dela.
Mas a Cathy na real é uma baita de uma egoísta covarde.
Ela queria continuar casada com Edgar e, ao mesmo tempo, queria Heathcliff por perto. Não teve coragem de assumir o homem que amava, escolheu se casar com alguém socialmente mais aceitável e depois ficou indignada porque o marido não aceitava ser corneado.
Os motivos que ela deu para se casar com Edgar são uma BOSTA. Ô garotinha sem juízo.
Outra coisa que me chamou muito a atenção foi justamente tudo aquilo que escapa à narração da Nelly. Por exemplo, quando Heathcliff volta e Catherine claramente fica feliz porque ainda o ama. Ela praticamente arrastava Isabella para visitar Heathcliff e depois dava um jeito de ficar sozinha com ele. Para mim, isso é uma forte indicação de que Edgar estava sendo feito de trouxa.
E falando em Isabella: meu Deus, eu fiquei com dó dessa guria.
Ela foi muito burra? Foi.
Não percebeu o verdadeiro motivo pelo qual Catherine a afastava e aparentemente acreditava que Catherine amava o irmão dela. Mas o fora que Heathcliff deu nela me deixou mal pela bichinha.
E depois ele simplesmente decide se casar com ela?!
Eu já não gostava dele, mas nesse ponto comecei a realmente odiá-lo.
Porque na boa o Heathcliff é um baita de um sacana. Depois da maneira como ele humilhou Isabella, nada me tira da cabeça que ele fez certas coisas de propósito, não apenas para irritar Catherine, mas porque também queria entrar em uma família de renome e ficar perto dela.
E, apesar de Edgar e Isabella terem seus defeitos, até aquele momento eu não conseguia ignorar que os dois eram, em certa medida, vítimas daquela situação. Edgar parecia ser um bom homem. É uma pena que a mulher que ele amava estivesse apaixonada por outra pessoa.
A doença de Catherine também foi uma daquelas coisas que eu tive dificuldade de entender completamente. Acho que esse é um dos problemas de ler uma história de época: eu nunca tenho certeza de qual é exatamente o problema de saúde que está acometendo alguém. Mas, considerando a medicina da época, dá para entender.
O que eu não consigo entender é como Heathcliff consegue olhar para toda aquela situação e concluir que a única culpada pelo sofrimento de Catherine é ela mesma.
Porque, em parte, ele tem razão. Ela poderia ter escolhido ficar com ele.
Mas isso não apaga o fato de que ele também escolheu se tornar um monstro.
Catherine morre depois de dar à luz uma menina, também chamada Catherine (ô povo sem criatividade). Hindley morre seis meses depois, destruído pelo álcool. Isabella foge para Londres, tem um filho — aparentemente de Heathcliff — e vive longe dele até morrer, anos depois.
Heathcliff, enquanto isso, assume controle sobre os filhos de seus inimigos e começa a manipular todo mundo ao redor para continuar sua vingança.
E aí a coisa fica completamente insana.
Heathcliff passa a sacrificar o próprio filho, a filha da mulher que amava, o filho do homem que odiava, Edgar e, basicamente, todo mundo ao redor dele para concluir uma vingança que não leva a lugar nenhum.
E eu acho que essa é a parte mais absurda do livro. A vingança dele não beneficia ninguém. Nem mesmo ele.
A história de Catherine e Linton também mostra o quanto a ideia de manter os filhos completamente ignorantes sobre o passado não funciona. Edgar e os outros praticamente esconderam tudo da Catherine Filha: não falaram sobre Heathcliff, sobre o Morro dos Ventos Uivantes, sobre Isabella ou sobre tudo o que havia acontecido. E depois ficaram surpresos quando ela caiu facilmente na lábia de Heathcliff, acreditando que ele era apenas um homem injustiçado.
Se ela soubesse de tudo desde o início, provavelmente jamais teria caído naquele papo.
Fiquei com muita pena do Edgar e do Hareton. As vidas dos dois foram profundamente afetadas pelo Heathcliff, e boa parte dos traumas e problemas que eles carregaram veio simplesmente do rancor de um velho que nunca conseguiu superar o passado.
E é aqui que eu realmente comecei a pensar que Heathcliff é, na verdade, um fraco.
Sim, ele sofreu. Sim, foi tratado de maneira horrível. Sim, tinha motivos para odiar aquelas pessoas.
Mas ele nunca conseguiu aceitar que a Catherine poderia ter escolhido ficar com ele e simplesmente não escolheu.
Em vez de lidar com isso, passou o resto da vida tentando punir todo mundo.
E, meu Deus, o nível que esse homem chega para forçar um casamento é absurdo. Tudo por uma vingança besta e estúpida que não beneficia ninguém, nem mesmo ele.
Queria deixar registrado que o maior hater do Heathcliff não é, e nunca foi, Hindley. Sou eu.
Puta que pariu, que homem DESGRAÇADO.
Eu sinceramente só não saí dançando quando vi que ele morreu porque estava deitada e com preguiça de me levantar.
Mas o mais irônico é que, no final, a vingança dele não levou a absolutamente nada.
Heathcliff jamais conseguiu ficar com a mulher que amava. Nunca conseguiu simplesmente viver em paz. Não conseguiu transformar sua riqueza em felicidade. Não conseguiu apagar o passado. Destruiu a vida do único parente de sangue que tinha e prejudicou gerações inteiras por causa de uma obsessão.
E, depois que ele morreu, os filhos daqueles que ele odiava viveram em paz.
No fim, talvez a maior ironia seja justamente essa: os únicos Heathcliff e Catherine que tiveram um final feliz foram aqueles que, originalmente, não tinham a menor inclinação para ficarem juntos.
No final das contas, O Morro dos Ventos Uivantes não me pareceu uma grande história de amor.
Para mim, é uma história sobre pessoas que se amaram, fizeram escolhas ruins e passaram décadas destruindo a própria vida — e a vida de todo mundo ao redor — porque ninguém conseguiu simplesmente deixar o passado morrer.
E Heathcliff, depois de tudo, conseguiu exatamente o que tanto queria: ser tão miserável quanto as pessoas que um dia o fizeram miserável.
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